A Evolução da Sexualidade

Por: Dr. Rubens Paulo Gonçalves

O intuito deste texto é tentarmos fazer uma relação entre o que guardamos em nosso inconsciente e nossas respostas a essas memórias. O ser humano começa a ter registros a partir da formação do sistema nervoso, que funciona como um gravador. Experiências revelaram, entretanto, que algumas memórias são genéticas, atávicas ao nosso ser, e seriam transmitidas pelos nossos cromossomos. É o caso, por exemplo, do ato de sugar, que envolve o movimento de uma série de músculos e que já existe na vida intra-uterina através da expressão de nossos genes. 


Se nos detivermos a pensar sobre quais aspectos de nossa sexualidade podem ser transmitidos pela nossa memória cromossômica certamente poderemos chegar a inúmeras conclusões que supostamente esclareceriam pontos obscuros de cada ser humano. Como tais constatações ainda não são cientificamente estabelecidas, infelizmente o que podemos inferir é que elas existem e farão parte de um futuro da ciência. O que sabemos é que o ser humano já no útero começa a ter um estímulo prazeroso, o que Freud chamou de “sexual”. 


A sexualidade como forma de prazer sentido teria então como começo a sexualidade dérmica, o prazer sentido pelo feto quando toda a sua pele tem contato com o líquido amniótico no interior do útero. A evolução dessa sensação de bem-estar e segurança seria o prazer oral, a sexualidade oral. Para entender o que é isso, imaginemos que o recém-nascido é para ele mesmo só uma sensação de desconforto na altura do estômago - esse é seu primeiro sentimento. A dor é ele e ele é a dor; o caos é absoluto. De repente, alguém pressiona seus lábios e ele instintivamente suga. Inicialmente pode não haver diferença na dor, mas ele percebe que algo melhorou. Ele é uma boca e um desconforto. Mais um passo e ele percebe que ele emite um som e, mais um pequeno espaço de tempo, percebe que alguém encosta alguma coisa na sua boca e depois de um tempinho o desconforto pára. Que prazer imenso ele tem! O choro alivia sua angústia porque traz algo à sua boca e o ato de engolir faz parar o seu desconforto. Ao sentir isso ele já é uma boca, um cano da boca até o estômago (a dor) e o próprio estômago. Isso mantém-se assim por algum tempo. 


Um pouco mais e ele tem noção de que alguma coisa caminha por dentro dele e ele tem muito prazer em eliminar. Ao mesmo tempo ele reconhece alguém que tem seu cheiro e que o alimenta. Ele reconhece o seio. Enorme e gostoso, e ela, a nutridora, a mãe! Como ele a presenteia? Com a única coisa que ele produz e lhe dá prazer, o seu cocô! As vezes ele até guarda o cocô por mais tempo, para ter maior prazer em eliminá-lo ou, bravo com a nutridora, ele não a presenteia e fica com prisão de ventre. O que interessa é que a localização do prazer sexual no ânus é então a evolução da sexualidade oral para a sexualidade anal, já um prenúncio da sexualidade genital. 


Por volta de quinze meses, o nenê descobre: ele tem um pênis; ela tem um clitóris. Mais que isso, descobre que é muito gostoso esfregá-lo. É a fixação genital da sexualidade. Baseados nesse mapa inicial da evolução da sexualidade tentaremos fazer comparações entre suas diversas fases e as respostas na fase adulta. 


Imaginemos um exército em uma guerra. Imaginemos que esse exército tenha tomado uma região e tenha que continuar avançando. Para que isso aconteça, para encompridar suas linhas e cada vez mais ir à frente, ele tem que estar com o terreno tomado, perfeitamente sob controle, resolvido. Com a sexualidade é a mesma coisa: para passar de uma fase para a outra e evoluir sexualmente é preciso que a fase anterior esteja sedimentada. Sem dúvida resquícios ficam de cada uma das fases, como em um exército ficam as memórias do terreno tomado, mas a evolução tem que existir, o amadurecimento da sexualidade tem que acontecer. 


As experiências primitivas, se bem resolvidas, proporcionam uma evolução tranquila, não querendo dizer com isso que não deixem traços. Tentemos analisar o que permanece de cada uma. O que fica no adulto da sexualidade dérmica? O imenso prazer em tomar um banho de imersão em água tépida de uma grande banheira (e se possível numa posição fetal) depois de um estresse ou um trabalho desgastante. O prazer de ser acariciado pela água ou por alguém. O contato pele a pele com alguém que se ama. Tudo isso permanece. Ao contrário, o contato pele a pele difícil, não gostar de ser acariciado e o medo de se afogar numa banheira podem refletir dificuldades naquela fase. 


E quanto à sexualidade oral, o que fica? O beijo, a fome exagerada, o comer por angústia, a calma após engolir alguma coisa, ou, ao contrário, a bulimia e anorexia - todos resquícios dessa fase. Se pensarmos que engolir alguma coisa fazia com que nos sentíssemos bem, é explicável a fome quando somos contrariados ou estamos sob estresse. O estimulo sexual dado pelo beijo nos remete ao prazer que tínhamos quando encostávamos nossos lábios nos seios de nossas mães. Naquela época a proporção entre o seio e nós era muito grande. As vezes nos deparamos com homens que adoram seios imensos. Provavelmente querem manter na fase adulta a mesma proporção de quando eram amamentados, daí o sucesso das mulheres com seios grandes. Sugar o mamilo durante os preâmbulos sexuais excita as mulheres pois os mamilos são zonas erógenas e os homens pela presença mnêmica da sexualidade oral. Lamber ou ser lambido antes do ato sexual revela então um misto de sexualidade oral e dérmica.

 

Talvez aqui seja interessante reparamos por que a evolução da sexualidade tem que existir: porque só beijar, lamber, sugar os mamilos ou o felácio não levam à procriação. A evolução da sexualidade conduzirá o homem e a mulher a se unirem e procriarem. Essa é a função primordial, é por isso que sexo é tão bom! É a garantia da natureza de que o ser humano vai procriar. 


No caminho para a sexualidade nos órgãos genitais, o prazer “ sexual” passa pela sexualidade anal. 

A fase da retenção das fezes na criança para ter o prazer de evacuar em maior volume mais tarde ou negar à mãe o seu produto (as fezes) como uma forma de negação de um presente deixam para a fase adulta o resquício do prazer sexual anal ou peri anal. Muitas mulheres e homens tem essa zona como de grande excitação. Paralelamente a isso, alguns sofrem de prisão de ventre crônica de origem emocional ou têm diarréias quando submetidos a angústias. Também dessa fase vem personalidades introvertidas, os colecionadores, os que guardam coisas. 


A evolução da sexualidade para a sexualidade genital completa o ciclo. A partir das excitações na descoberta do pênis e do clitóris como fonte de prazer, o que acontece entre um ano e um ano e meio, as crianças passam por uma fase de latência que pode durar alguns anos. Aos quatro ou cinco anos aparecem as primeiras tentativas de identificações: o menino com a figura paterna mais presente e a menina com a figura materna; a bola e a boneca, presentes desde o berço, ganham sentido para ele e para ela. 


Um pouco mais, entre cinco e seis anos, as próprias noções de si mesmo, da existência e da diferenciação como ser separado da mãe suscitam as primeiras perguntas: “De onde eu vim?”, “Como eu entrei lá?”, “ Como eu saí de lá?” Respondidas com a verdade em palavras simples e coerentes com o entendimento dos pequeninos, eles logo deixam de se interessar pelo assunto. Quanto mais forem escondidas e inexatas as explicações, mais aguçaremos a curiosidade das crianças de uma forma errada.